Cidadão Boilesen (Resenha)

por Aline de Oliveira Chaves

O documentário “Cidadão Boilesen”, dirigido por Chaim Litewski, inicia-se na infância de Henning Albert Boilesen, apresentando aspectos escolares e familiares de sua vida. Desenvolve-se então a trajetória do empresário através de depoimentos, imagens e até são reconstituídos fatos narrados pelos entrevistados. Boilesen era executivo chefe do grupo Ultra, que tinha a Ultragaz como uma de suas empresas. Dinamarquês, foi naturalizado brasileiro e um dos responsáveis pelo financiamento ao movimento de violenta repressão durante o período de Ditadura Militar no país.   

Ao longo do documentário que é permeado por opiniões controversas relacionadas a vida de Boilesen, o oficial que dirigiu a OBAN (Operação Bandeirantes), Dirceu Antônio, afirma que o empresário da Ultra Gás realmente era espectador constante das torturas cometidas, enquanto o filho  nega todas as acusações feitas ao pai. As narrativas divergem entre si, enquanto alguns personagens que fizeram parte desse momento histórico tão marcante tentam se isentar da culpa.

Explicitando o forte envolvimento de empresas, principalmente as paulistas, o documentário apresenta a relação entre o governo e a iniciativa privada, que forneceu apoio político através de liberação de capital. Empresas conhecidas até hoje e que nunca saíram do mercado como a Ultra Gás, a FORD e a General Motors financiaram a Operação Bandeirantes, piloto da repressão, que resultou na criação do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna) e consequentemente em inúmeras torturas no Brasil.

Boilesen teria ido além do contato financeiro que os outros empresários tinham, ele tinha prazer pelas torturas, segundo relatos ele teria inclusive frequentado a sede da OBAN para assisti-las. Entrevistados afirmam que o empresário participava de sessões de tortura e que teria inclusive trazido dos Estados Unidos um instrumento de tortura que foi apelidado de “pianola Boilesen”. 

Em um país tido como democrático, vivenciava-se a “democracia” da Tortura. O documentário com diversas visões traz várias descrições sobre torturas praticadas em homens e mulheres; enquanto o país comemorava a grande vitória no futebol, era ao mesmo tempo vitima de inescrupulosas atrocidades em sua maioria abafadas pela mídia e apoiadas por pessoas como Boilesen.   

O sádico empresário foi morto por militantes do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) e da Ação Libertadora Nacional (ALN) na Alameda Casa Branca, em São Paulo em abril de 1971. Na época, políticos e empresários condenaram o assassinato e até o homenagearam pós-morte, caracterizando o ato como terrorismo, no entanto seria certo chamar de terrorismo aquilo que foi reflexo do que vinha sendo feito com uma parte da população?  Efeito de uma cadeia de atos terroristas que vinham sendo praticados por militares e apoiadores, fazendo parte do dia a dia daqueles que se opunham ao Regime.

O documentário sobre a vida de Boilesen traz a tona partes da Ditadura Militar que são muitas vezes são deixadas de lado, principalmente quando envolvem o nome de grandes empresas presentes em nosso cotidiano, não se discute o assunto, arquivam, esquecem, e nos fazem nem ter conhecimento sobre aquilo que aconteceu em um passado recente por interesses daqueles que estavam e até hoje se mantém no poder econômico. Fazendo parte das políticas de memória, obras como essa são extremamente importantes para o estudo e entendimento da história, ampliando a visão do espectador e indo além do esperado, “para que nunca mais se esqueça, para que nunca mais aconteça”.

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