As Sufragistas e ‘Cidadania, Classe Social e Status’ de Marshall (Resenha)

por Aline de Oliveira Chaves

Simone de Beauvoir disse uma vez que “Toda a opressão cria um estado de guerra”, e é justamente disso que o filme As Sufragistas, escrito por Abi Morganm e dirigido por Sarah Gavron trata. Se passando no inicio do século XX, o filme mostra uma parte do que foi o movimento sufragista feminino na Inglaterra, trazendo a história de um grupo de militantes em especial que tiveram forte participação nessa luta que seria um grande passo para a busca por igualdade entre homens e mulheres que se estende até os dias atuais.  

Logo no começo, dando um contexto histórico inglês, o filme apresenta a rotina do exaustivo trabalho nas fábricas, mostrado a exploração, violência de gênero e a insalubridade vivida diariamente pelas mulheres daquela época. A personagem principal, Maud Watts, é funcionária da fábrica desde muito jovem, pouco politizada, ela se mostra a margem da luta das mulheres pelo direito ao voto, até que certo dia ela acaba se vendo em meio a uma confusão gerada por mulheres que faziam parte do movimento sufragista, daí em diante Maud passa a se interessar cada vez mais pelo movimento, refletindo internamente sobre seu quotidiano e atitudes ao entorto que até então ela considerava normais. A participação política de Maud começa a passar por uma transformação após a cena do filme na qual ela precisa discursar ao Primeiro Ministro. “– O que significa o voto para você, senhora Watts?” – perguntou o Primeiro Ministro a Maud “– Por que está aqui?”. E ela responde “– Pela ideia de que… há outra maneira de viver a vida”, e é por essa “outra maneira de viver a vida”.

Maud, não se identifica como uma sufragista logo de inicio e só passa a considerar-se uma em meados do filme, após o forte discurso de Emmeline Pankhurst, durante cinquenta anos temos trabalhado de forma pacífica para garantir o voto para as mulheres. Temos sido ridicularizadas, maltratadas e ignoradas. Agora percebemos que ações e sacrifícios, devem ser a ordem do dia. Estamos lutando por um tempo em que cada menina nascida neste mundo terá uma oportunidade igual aos seus irmãos. Nunca subestime o poder que as mulheres têm de definir os nossos próprios destinos. Nós não queremos quebrar as leis, nós queremos faze-las”.   Ao chegar em casa, a personagem principal é expulsa e afastada de seu filho, sobre quem segundo a lei vigente na época, não tinha nenhum direito, Maud então se vê como uma sufragista e percebe dentro de si que precisa tomar uma atitude para mudar o que está acontecendo.

Se em Cidadania, Classe Social e Status, Thomas Marshall diz que “Marhsall aceitava como certo e adequado um raio amplo de desigualdade quantitativa ou econômica, mas condenava a diferenciação ou desigualdade qualitativa entre o homem que era “por ocupação ao menos um cavalheiro” e o individuo que não o fosse”, no filme As Sufragistas a desigualdade era tanto econômica quando qualitativa, apresentando forte contraste social que interferia inclusive na militância das mulheres, aquelas que possuíam dinheiro não eram presas tão facilmente como aquelas que possuíam condições financeiras inferiores.

O filme apresenta fortes cenas de violência, abuso e maus tratos, mostrando que os direitos civis pouco valiam para as mulheres. Então, cabe a reflexão acerca do que Marshall escreveu sobre a lógica dos direitos, pois, para as mulheres, talvez, os direitos políticos não seriam produto secundário dos direitos civis, afinal os civis não eram totalmente garantidos para o sexo feminino. Não sendo portanto, tida como cidadã, tendo em vista que Marshall parte do principio que o conceito de cidadania envolve três elementos do direito, o civil, o político e o social.  

“A Guerra é a única língua que os homens conseguem entender”, é uma das falas mais marcantes do filme. A mulher então, luta pelo direito ao voto, mas também luta por muito mais, por uma causa que vai muito além, a sua própria cidadania. E sobre isso, Marshall fala que, “foi próprio do século XX (…) associar os direitos políticos direta e independentemente á cidadania como tal. Essa mudança vital de principio entrou em vigor quando a Lei de 1918, pela adoção do sufrágio universal, transferiu a base dos direitos políticos do substrato econômico para o status pessoal”.

Foi após muita luta e com a ação de Emily que as Sufragistas conseguem finalmente a atenção que buscavam da mídia. Após muitos anos de sacrifício e de uma luta que levou à prisão mais de mil mulheres britânicas, em 1918, o direito de votar foi concedido às mulheres com idade superior a 30 anos. Em 1925, a lei reconheceu o direito das mães sobre seus filhos e em 1928, as mulheres inglesas igualaram o seu direito de voto ao dos homens.

Para além da própria história da conquista do direito ao voto pelas mulheres, o filme nos traz também o questionamento de quantas “Mauds” do começo do filme existem por aí? Sem nunca desenvolver tal consciência critica, sendo submetidas a violências sem ao menos se darem conta de que é uma violência. Infelizmente, o que aconteceu no passado ainda possui fortes reflexos em nosso presente.

Ao final do filme, é mostrado cada ano em que as mulheres conquistaram a igualdade de voto em diferentes países, o que realmente impressiona ao notar a discrepância na obtenção do direitos entre homens e mulheres.

Apesar de tantas lutas, as mulheres ainda hoje permanecem sendo as maiores vitimas de abusos e violências domésticas, de estupros e abusos, permanecem com salários inferiores e estão distantes de atingir a tão sonhada “igualdade”. Mas perduram na luta, perduram por uma e por todas, em busca de uma sociedade justa e igualitária politicamente, economicamente e socialmente, não esquecendo que como citou Karl Marx “A história da humanidade é a história da luta…”.

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